Uma idosa de 85 anos, Elvira Cenci, não resistiu aos ferimentos causados por um incêndio que destruiu parte da loja Show Motos em Copacabana, na noite de segunda-feira, 15 de dezembro de 2025. O fogo, que começou no térreo do prédio na Avenida Princesa Isabel, altura da Rua Ministro Viveiros de Castro, se espalhou rápido para o condomínio residencial acima — forçando a evacuação de todos os apartamentos. Elvira foi socorrida em estado grave pela UPA de Copacabana, mas morreu antes de chegar ao hospital. Outras duas pessoas ficaram feridas: uma levada em estado crítico para a UPA e duas para o Hospital Municipal Miguel Couto. O Corpo de Bombeiros só conseguiu controlar as chamas por volta das 20h20, após mais de uma hora de combate intenso. A coluna de fumaça negra foi avistada de vários pontos da Zona Sul. O trânsito na principal via da região foi totalmente interditado, com quatro faixas bloqueadas até as 23h. A CET-Rio atuou em conjunto com os bombeiros para desviar o fluxo, mas o congestionamento persistiu por horas.
Um prédio, dois mundos: loja e residência em chamas
O prédio da Show Motos era uma estrutura mista: loja de venda e manutenção de motos elétricas no térreo, apartamentos residenciais nos andares superiores. Essa combinação, comum em bairros centrais do Rio, virou uma armadilha mortal. As baterias de íon-lítio das motos — altamente inflamáveis e capazes de reacender mesmo após parecerem apagadas — foram as principais suspeitas da origem do incêndio. Testemunhas relataram que o fogo começou perto dos carregadores, em uma área onde os equipamentos ficavam armazenados após reparos. A fumaça tóxica subiu rapidamente pelos dutos de ventilação e escadas de emergência, impedindo a evacuação segura de alguns moradores. Um morador do 7º andar contou que ouviu “um estouro como de bomba” antes de ver chamas saindo da janela da loja. “Achei que era um vazamento de gás. Só quando o corredor encheu de fumaça entendi que era pior.”
Dois incêndios, uma mesma dúvida
Menos de três semanas depois, em 3 de janeiro de 2026, outro incêndio atingiu uma loja de veículos elétricos na mesma avenida: a Bashi Motors, localizada a apenas 250 metros da Show Motos, na Avenida Princesa Isabel, número 7. O fogo começou por volta das 13h55, e foi controlado às 16h09. Apesar da intensidade — com chamas visíveis a mais de 200 metros —, não houve feridos. Mas o que assustou os moradores não foi a falta de vítimas, e sim a semelhança. O mesmo tipo de loja. A mesma avenida. A mesma região de alto tráfego. O mesmo tipo de bateria. “É como se o bairro tivesse virado um alvo”, disse o comerciante José Ribeiro, que tem uma padaria na esquina da Bashi. “Duas vezes em um mês? Isso não é coincidência. É negligência.”
Regulação em atraso, risco em crescimento
O Rio de Janeiro tem mais de 120 lojas especializadas em motos e bicicletas elétricas, segundo dados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico. Muitas funcionam em prédios antigos, sem detectores de fumaça, sem extintores adequados e com instalações elétricas obsoletas. A legislação municipal, que deveria exigir certificação de segurança para esses estabelecimentos, ainda não foi implementada. Enquanto isso, o número de veículos elétricos na cidade cresceu 78% em 2025, impulsionado por incentivos fiscais e a falta de opções de transporte público. “A gente vende mais, mas não tem estrutura para vender com segurança”, admitiu um técnico da Associação dos Revendedores de Veículos Elétricos em entrevista ao jornal O Globo. “A regulamentação está atrasada em pelo menos dois anos.”
Reação lenta, moradores em alerta
Após o segundo incêndio, moradores da Avenida Princesa Isabel criaram um grupo no WhatsApp chamado “Copacabana Segura — Baterias Não”. Em menos de 72 horas, mais de 1.200 pessoas se juntaram. Eles pedem a interdição temporária de todas as lojas de veículos elétricos até que sejam auditadas. Alguns condomínios já começaram a exigir laudos técnicos das lojas que operam em seus prédios. A prefeitura anunciou que fará “vistorias emergenciais”, mas ainda não divulgou cronograma. Enquanto isso, a família de Elvira Cenci protocolou um pedido de investigação criminal por “homicídio culposo por omissão”. “Ela não morreu por acaso. Morreu porque ninguém fez o que deveria”, disse o neto, Leonardo Cenci, em entrevista à TV Globo.
Qual o custo real da mobilidade elétrica?
As motos elétricas são vistas como a solução ecológica para o trânsito caótico do Rio. Mas a realidade é mais complexa. Em 2025, o Corpo de Bombeiros registrou 17 incêndios relacionados a baterias de íon-lítio na cidade — o dobro de 2024. Nenhum deles resultou em mortes, até agora. O caso de Elvira Cenci foi o primeiro. O que parece um problema técnico é, na verdade, um problema de gestão urbana. Lojas funcionam em prédios que não foram projetados para armazenar centenas de baterias. Moradores dormem acima de depósitos que não têm sistema de ventilação. E ninguém fiscaliza. “A cidade quer ser verde, mas não quer pagar o preço de ser segura”, disse a engenheira ambiental Fernanda Lopes, da UFRJ. “Se a gente não mudar isso, o próximo incêndio pode não ser em Copacabana. Pode ser em Ipanema, Leblon, ou até em São Gonçalo.”
Frequently Asked Questions
Por que as baterias de motos elétricas pegam fogo tão facilmente?
As baterias de íon-lítio, usadas em quase todos os veículos elétricos, são altamente energéticas e sensíveis a sobrecargas, calor e danos físicos. Se carregadas em locais inadequados, com cabos defeituosos ou em ambientes sem ventilação, podem sofrer “termal runaway” — um processo em que o calor gerado acelera a reação química interna, levando à explosão ou incêndio. Esse fenômeno pode ocorrer mesmo horas após o carregamento, o que torna o risco ainda maior em lojas que guardam dezenas de baterias em pequenos espaços.
Quais são as exigências legais para lojas de motos elétricas no Rio?
Atualmente, não há regulamentação específica no município. Lojas operam sob regras gerais de comércio, sem exigência de sistemas de detecção de fumaça, extintores classe ABC, ventilação forçada ou distância mínima de edifícios residenciais. A prefeitura chegou a propor um projeto de lei em 2024, mas ele ainda está em análise na Câmara Municipal. Enquanto isso, a maioria das lojas não tem nem seguro contra incêndio. O risco recai sobre os moradores e os bombeiros.
O que aconteceu com o prédio da Show Motos após o incêndio?
O prédio foi interditado pela Defesa Civil por risco de colapso estrutural. A laje do térreo foi danificada pelo calor intenso, e as paredes laterais apresentam rachaduras profundas. A prefeitura anunciou que fará um laudo técnico em 15 dias, mas já sinalizou que o prédio pode precisar ser demolido. Os moradores dos apartamentos superiores foram realocados em hotéis da região, com auxílio financeiro temporário. A família de Elvira Cenci espera que o prédio não seja reconstruído como loja de motos elétricas.
Há precedentes desse tipo de incêndio no Brasil?
Sim. Em 2023, um incêndio em uma loja de bicicletas elétricas em São Paulo matou dois homens e destruiu um prédio inteiro. Em 2024, em Belo Horizonte, uma explosão de bateria em um depósito causou oito feridos. Mas foi só em 2025 que o Rio registrou sua primeira morte. A diferença? Enquanto em outras cidades houve fiscalização rigorosa após os incidentes, no Rio as lojas continuam abrindo sem controle. O Corpo de Bombeiros do Rio já fez 120 vistorias em 2025 — apenas 17% delas foram consideradas dentro das normas mínimas.
Essa é a conta que o Rio vai pagar por querer ser moderno sem fazer a lição de casa. Baterias de íon-lítio são como dinamite em forma de celular, e ninguém tem coragem de dizer que lojas de moto elétrica NÃO DEVEM ficar em prédios residenciais. Ocorre que a prefeitura tá mais preocupada em fazer campanha de "energia limpa" do que em salvar vidas. Termal runaway não é teoria, é fato. E o pior? Ninguém quer assumir responsabilidade. 💥